‘’Em Macau, tirar um curso é uma coisa que é vista com uma grande seriedade. Não é uma fase da vida’’

‘’Em Macau, tirar um curso é uma coisa que é vista com uma grande seriedade. Não é uma fase da vida’’

‘’Em Macau, tirar um curso é uma coisa que é vista com uma grande seriedade. Não é uma fase da vida’’

Fonte: AULP, 2014-02-04

Rui Simões é um dos portugueses que já lecionou fora do país. Em entrevista, o professor partilhou a sua experiência em Macau, as dificuldades e as diferenças entre o povo português e macaense. Apesar do choque de culturas evidente, considerou a sua experiência gratificante e que a mesma lhe permitiu mudar alguns aspetos da sua forma de dar aulas.

AULP – Que benefícios lhe trouxe esta experiência enquanto pessoa, professor e investigador?

RS – É difícil dissociar as coisas. A primeira é relacional. Tive sorte com os meus alunos e, independentemente dessa diversidade, as pessoas foram muito simpáticas. Construí boas relações ali. Voltei a Macau 15 anos depois e vários alunos vieram ter comigo para marcar um encontro. Há uma empatia grande entre nós. A segunda é de uma dimensão didática: foi um processo lento e pontualmente mais doloroso. Alguns dos alunos tinham dúvidas e não as enunciavam. Não era raro ter alunos, principalmente chineses, que julgavam que dizer ao professor que não entendiam era uma forma de dizer que este não tinha explicado bem.

AULP – Quais as principais dificuldades em lecionar num país que não o de origem?

RS – Macau é uma situação singular. Trata-se de um contexto onde uma das línguas oficiais é a língua portuguesa. Em Macau tive alunos metropolitanos (naturais de Portugal), alunos macaenses, chineses, cantonenses, guineenses, cabo-verdianos, angolanos, australianos e americanos. A diversidade foi muito grande e isso trazia variáveis na ordem de funcionamento de uma aula. Os problemas de comunicação não eram exclusivamente do professor, mas também entre eles.

AULP – O impacto cultural foi grande quando foi para Macau?

RS – É evidente que há um choque e esse choque em parte era muito desejado. Não era a primeira vez que eu tinha saído de Portugal: já tive uma bolsa para estar na Índia. Não foi uma saída desenhada com uma estratégia económica, apesar de muitas pessoas o terem feito. Eu tinha condições para o fazer e tinha um enorme desejo de viver na Ásia, em particular na China e Macau.

AULP – Quais são as maiores diferenças culturais entre Portugal e Macau?

RS – Há diferenças que são relacionadas com os mercados muito dinâmicos, a relação com o tempo, o aforro, as noções de privacidade… As pessoas não me convidavam para as suas casas, mesmo que tivéssemos uma enorme empatia. Nesses sete anos e meio devo ter sido convidado duas ou três vezes para ir a casa de amigos chineses.

AULP – O que difere de uma aula em Macau para uma aula em Portugal?

RS – Difere, por exemplo, no domínio da participação. Em Macau havia uma maior noção de que uma aula converge para um determinado tipo de finalidade. As pessoas estavam a trabalhar para esse fim, com maior ou menor interesse. Uma vez dois alunos vieram-me perguntar o que queria dizer a palavra “keké”. Estavam intrigadíssimos. Até que percebi que eram cinco palavras que estavam em causa: “o que é que é”. A partir daí comecei a falar mais devagar. Parecia que estava o tempo todo a fazer anúncios de cola para dentaduras (risos). Foi uma preocupação que eu ganhei, em especial com alguns alunos e turmas. É uma diferença que julgo ser mais histórica do que cultural.

AULP – A forma como dava as aulas modificou-se depois de passar por essa experiência?

RS – Eu penso que sim. Modificou-se em relação a algumas práticas que mais tarde vim a refletir. Para as pessoas dominarem um determinado algoritmo, precisam de um determinado número de exemplos. Percebi ainda que o facto de uma pessoa ter experiência, por exemplo, em dar cultura portuguesa a chineses, não o torna só por isso mais apto a dar cultura portuguesa a espanhóis ou a franceses.

AULP – Acha que em Macau se valoriza mais a educação do que em Portugal?

RS – Acho que sim. Encontramos isso, mas acho que a diversidade de alunos e das suas motivações faz com que haja exceções. Digamos que o empreendimento para fazer um curso é maior. Em Macau, tirar um curso é uma coisa que é vista com uma grande seriedade. Não é uma fase da vida. Não se é estudante, tem-se um curso para fazer. Estudar em Macau era caro e por isso a ideia de perder um ano era um drama. O esforço era marcado e as famílias tendiam a valorizar muito a escolarização. Ter uma nota baixa, para muitos daqueles alunos, era humilhante. Os alunos que estudavam em Pequim eram os melhores, dos melhores, dos melhores. Quando chegavam eram autênticas máquinas de trabalho. O português era-lhes uma língua estrangeira. Recordo, que uma vez recomendei um livro português a alunos que frequentavam um curso de verão. Dois dias depois tinham lido tudo, apesar de ser numa língua que lhes era difícil. Era necessário ter respeito por quem trabalhava assim.

AULP – Recorda Macau com nostalgia…

RS – Sim. Foram sete anos gratificantes, sobretudo a nível relacional. Estive há dois anos atrás em Macau e está completamente diferente. As diferenças não são só no património edificado. Há diferenças de população, novas gerações, novos interesses, novas preocupações. E esse dinamismo requere a humildade de aprender um contexto que não se recapitula obrigatoriamente na memória.

Percurso Profissional: Rui Simões é Professor Adjunto da Escola Superior de Comunicação Social, onde tem vindo a lecionar as disciplinas de Sociologia, Antropologia, Metodologias de Investigação e a opção de Comunicação Intercultural. Foi professor da Escola Superior de Educação de Setúbal (1986-1992), da Universidade de Macau e do Instituto Politécnico de Macau (1992-1999). Os principais temas de pesquisa são a Comunicação, a Educação, o Lúdico e os Processos de Construção da Memória, nomeadamente associados à presença portuguesa na Ásia. Foi investigador na Índia e é Mestre em Sociologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

Problemática do choque cultural: Para lidar com o choque cultural, é necessário, através da observação que se decida a forma como abordar pessoas e situações. Depois há que tornar as coisas claras com o método de tentativa e erro. Por fim tem de se ser imparcial, paciente, esperar o inesperado e ter capacidade de adaptação. O choque cultural pode ser visualizado como uma curva em forma de U que exibe um otimismo inicial sobre a cultura de acolhimento, um mergulho subsequente de sentimentos sobre a cultura de acolhimento e uma recuperação gradual a um ponto de se ser capaz de funcionar eficazmente na nova cultura.

Fonte: Samovar, Larry A. & Porter, Richard E. (2010). Communication between cultures. Belmont: Wadsworth, pp. 398-399.

Vox Pop – Estudar para trabalhar ou trabalhar para estudar?

Vox Pop – Estudar para trabalhar ou trabalhar para estudar?

Vox Pop – Estudar para trabalhar ou trabalhar para estudar?

Fonte: AULP, 2014-02-04

Uma realidade em Portugal que abrange cada vez mais estudantes do ensino superior. Uns precisam de dinheiro para pagar os estudos, outros querem pagar as suas despesas pessoais e ganhar independência financeira. A lei prevê esta situação, mas apesar da existência de um regulamento colocam-se algumas questões. O estatuto funciona? As empresas preferem contratar estudantes sem o estatuto? O que é preciso mudar?

Em Portugal, o trabalhador estudante tem direito a pedir à empresa o dia do exame e o dia anterior ao mesmo. No entanto, alguns alunos decidem não solicitar o estatuto na empresa com receio de que o contrato não seja renovado, como é o caso de João Domingues, estudante de Farmácia. Patrícia Lopes, estudante de Relações Públicas e Comunicação Empresarial acredita no oposto – que as empresas valorizam quem estuda e trabalha, pois à partida são pessoas que fazern uma gestão eficaz do tempo.

Mas esta não é a única regalia. Na faculdade, os alunos têm direito a uma época especial de exames em todas as disciplinas. No entanto, alguns alunos apontam para o elevado valor desse exame. Patrícia Lopes, aluna da Escola Superior de Comunicação Social diz que paga 10,25 euros por cada exame feito nessa época.

Embora a maioria dos estudantes entrevistados acreditem que vale a pena requerer o estatuto, estes referem que há aspetos a melhorar. Sofia Silva defende que devia existir uma melhor comunicação interna, pois muitos professores desconhecem quais os alunos que têm o estatuto do trabalhador estudante: “A professora deu-me zero na participação desconhecendo que eu trabalhava. Eu informei-a e ela deu-me quinze valores.”

Ainda que exista um regulamento para o estatuto, este é aplicado consoante o professor que leciona a cadeira – o modo de avaliação do aluno é decidido pelo docente. Além disso, o estatuto do trabalhador estudante só pode ser pedido caso o aluno tenha apresentado aproveitamento escolar no ano anterior.

O estudante de Farmácia, João Domingues, defende que devia existir uma fiscalização que certifique o cumprimento do estatuto. Na sua opinião, faz falta a existência de um incentivo às empresas para que estas não rejeitem estudantes.

Apesar de todos os prós e contras, os entrevistados acham que vale a pena requerer o estatuto mesmo que existam aspetos a melhorar.

O estatuto de Trabalhador-Estudante actualmente em vigor foi aprovado pela Lei 23/2012, de 23 de junho, que altera o Código do Trabalho actualmente em vigor, aprovado pela Lei 7/2009, de 12 de fevereiro.

Veja as opiniões dos estudantes na VOX POP.

Vox Pop – Qual o seu filme português favorito?

Vox Pop – Qual o seu filme português favorito?

Vox Pop – Qual o seu filme português favorito?

Fonte: AULP, 2014-02-04

No âmbito da Harvard na Gulbenkian – diálogos sobre o cinema português e o cinema do mundo, a AULP foi à Faculdade de Ciências Socias e Humanas (FCSH) saber qual o filme português favorito dos estudantes universitários.

A tela era a preto e branco. Marcou muitas gerações. Quem esqueceu o Crime do Padre Amaro ou Vasco Santana na loja de Evaristo a perguntar “Ó Evaristo tens cá disto”?

A cor passou a dar luz às salas de cinema, mas as histórias retratam o antigamente. A adaptação ao mundo do cinema de grandes clássicos literários portugueses resistiu ao digital e continua a fazer caminho na história do cinema.

“Os Maias”, os filmes de Manoel de Oliveira ou a “Gaiola Dourada” são um exemplo de sucesso em terras lusas. O filme de Ruben Alves foi, por exemplo, o mais visto no ano passado e distinguido com o Prémio do Público nos últimos Prémios da Academia de Cinema Europeu. Está ainda nomeado para os “César”, os prémios de cinema atribuídos em França, na categoria de Melhor Primeira Obra.

Com a realização do luso-francês Ruben Alves, “Gaiola Dourada” utiliza uma série de clichés como o bacalhau ou o fado e representa os sacrifícios dos emigrantes em terras francesas e a forma de estar das primeiras gerações lusas em França.

A este elenco pertencem nomes como Joaquim de Almeida e Rita Blanco, que interpretam os papéis de José Ribeiro (chefe de obra/pedreiro) e Rita Blanco (porteira).

Clique na imagem acima para saber quais os filmes portugueses preferidos dos estudantes universitários.

Circulação facilitada entre países da CPLP: Falta desenvolvimento e o aval português

Circulação facilitada entre países da CPLP: Falta desenvolvimento e o aval português

Circulação facilitada entre países da CPLP: Falta desenvolvimento e o aval português

Fonte: AULP, 2014-02-04

Os problemas de circulação dos cidadãos da CPLP são uma das grandes preocupações do Embaixador Murade Isaac Miguigy Murargy.

Há muito que se discute a situação dos vistos dentro da CPLP. “Eu fiz uma proposta para que fosse encontrada uma forma de facilitar a circulação dos empresários, estudantes, professores, pesquisadores, investigadores, desportistas, jornalistas e/ou artistas”.

Contudo, o Secretário Executivo da CPLP lembra que “tem de haver vontade política dos países para que haja acordo. É preciso que os Estados/governos digam que estão preparados para abrir o espaço”. Mas acrescenta que o mais difícil é mesmo, entrar em Portugal. “Se houver abertura de Portugal para entrar neste jogo, todos os países vão ceder”.

A dificuldade de entrada em Portugal centra-se no compromisso dos países europeus sobre uma política de abertura das fronteiras e livre circulação de pessoas entre os países signatários, assinado em 1991, o Acordo de Schengen.

Para Murade Murargy, a situação da proposta apresentada para a circulação entre países da CPLP tem aqui um grande entrave. ”Schengen faz com que Portugal esteja com as mãos atadas. Não tem autonomia suficiente para poder decidir a circulação no espaço porque alguém que entra em Portugal está autorizado a circular nos países que assinaram esse acordo. Então tudo o que diz respeito à circulação de pessoas em Portugal tem de passar pelas autoridades de Bruxelas. Tem que haver um acordo em Bruxelas e isso não é fácil.”.

Como se não bastasse este grande obstáculo, existe também o problema dos países africanos ainda não terem mecanismos suficientes de controlo de entradas e saídas do território. ” Os países têm de ser organizados. Quando se entra num país, ele tem de saber onde é que a pessoa está e o que está a fazer. Os nossos países não estão preparados para isso. Sobretudo Angola e Moçambique ainda não têm mecanismos de controlo afinados para controlar quem entra e quem sai. É preciso que os países africanos estejam preparados para monitorar a circulação das pessoas dentro do seu espaço porque a circulação livre e sem controlo traz problemas sérios”.

A CPLP está determinada em conseguir mudar esta situação de circulação nos países pertencentes à comunidade e Murade Murargy referiu que estão a trabalhar para esse mesmo objetivo. ”Estamos a trabalhar para que haja acordo. A proposta que eu tenho é para que seja concedido o visto rapidamente para possibilitar as pessoas de entrarem no país que querem para exercer a sua atividade”.

O Secretário Executivo realçou ainda que a CPLP deve desenvolver o seu trabalho a pensar nos indivíduos e para conseguir esse objetivo tem de haver circulação de pessoas e de conhecimento. ”A CPLP tem de ser do cidadão e para ser do cidadão tem de haver circulação. Se é difícil que todos circulem então comecemos pelos que vão participar na construção da sociedade. Tem de haver circulação de conhecimento”.

A CPLP está também a laborar na criação de uma agenda comum entre os países da comunidade para que se possam discutir mais facilmente assuntos importantes para o desenvolvimento da comunidade, como por exemplo: educação, saúde, ambiente, energia, entre outros.

Vox Pop – Qual o seu filme português favorito?

A internacionalização do cinema português

A internacionalização do cinema português

Fonte: AULP, 2014-02-04

 

Está a decorrer atualmente o ciclo de cinema Harvard na Gulbenkian – diálogos sobre o cinema português e o cinema do mundo. A próxima sessão será já dia 14 de fevereiro com o filme “Xavier”, dando assim início ao fim-de-semana cuja temática é “cinema num tom menor”. O gabinete de comunicação da AULP falou com o coordenador deste projeto, António Caldeira Pires, para perceber melhor esta iniciativa.

Este ciclo de cinema consiste num programa de 12 fins-de-semana, em que se dá destaque a um cineasta português. Com a participação de colegas estrangeiros, o objetivo é promover o debate sobre as semelhanças entre o filme português e outros filmes internacionais. Relativamente à primeira sessão do ciclo, António Caldeira Pires afirma que “está a pôr-se o cinema de António Reis num contexto internacional, com os seus pares internacionais”.

António Caldeira Pires refere ainda a importância histórico-cultural de algumas destas peças. “Há uma preocupação museológica neste ciclo, que é apresentar os filmes no seu suporte original”. Esta preocupação fez com que já viessem para a Gulbenkian as cópias dos filmes em 16mm, sendo que atualmente a maioria dos filmes são no formato digital. Dada a complexidade do equipamento a Gulbenkian sentiu a necessidade de chamar uma projecionista do Canadá.

“É muito acessível. Para estudantes é €3,5, o equivalente a duas cervejas”, brinca António Caldeira Pires. Mas para quem não é estudante, pode assistir a este ciclo por um valor inferior ao de um bilhete normal de cinema, ou seja, por €5.

Um olhar sobre a história do cinema…

Foi a 28 de dezembro de 1895 que se deu a primeira sessão de cinema. Teve lugar no Grand Café de Paris, onde foi inaugurado o Cinématographe Lumiére. Tratava-se de um único plano de um comboio a entrar na estação o que criou o pânico dos espetadores e fez com que estes fugissem para a saída (“L’Entrée du train en gare de la Ciotat“).

Só em 1948 é que chega a televisão e são vendidos 14 mil aparelhos. Em 1949 venderam-se 172 mil, e 32 milhões em 1955. Com esta mudança de hábitos de lazer, começou o fim da era dos estúdios.

O facto de começarem a existir emissões regulares de televisão a partir de 1957 faz com que a televisão se torne o meio ideal para transmissão da ideologia do Estado – uma das razões para a crise do cinema português antes da década de 60 (em 1955, não houve uma única longa metragem portuguesa produzida, sendo este o chamado ano zero do cinema português).

Apesar disso, em 1959 e 1960 foram criadas duas entidades que ajudaram a divulgação e criação de filmes, a Cinemateca e o Fundo do Cinema. São passados filmes, nomeadamente, da nouvelle vague portuguesa.

A partir deste período, as novas preocupações dos filmes são o realismo, a ilustração da condição do Homem mas distanciando-se da perspectiva classicista, pela condição do povo. Há uma ruptura de género e de estilo. Jovens cineastas, com educação na área, juntam-se a este novo movimento vanguardista de cinema.

O 25 de abril de 1974 deu um fôlego a esta onda de cinema, nomeadamente em relação a documentários e filmes de ficção que abordam o tema – é o chamado cinema militante dos anos 70. Em relação à nouvelle vague, este cinema tem semelhanças a nível de técnicas de cinema, mas o protagonista passa a ser outro – é a classe social.

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