Como pagar uma licenciatura durante a crise
Sábado - Ensino Superior
Quarta-feira, 27 de Junho de 2012
Não tem qualquer rendimento e tem dificuldade em financiar uma licenciatura? Sim. Os seus pais ganham ambos o salário mínimo e a situação é melhor? Nem por isso. Por cada mês na universidade, os estudantes gastam, em média, 552 euros, mais 67 euros do que o ordenado mínimo nacional. De acordo com o relatório Quanto Custa Estudar no Ensino Superior Português, coordenado por Luísa Cerdeira, da Universidade de Lisboa, em 2011 cada aluno gastou por ano 6.624 euros para pagar todas as despesas. No ensino privado, os valores sobem para os 9.625 euros.

A maior parte dos gastos nem sequer abrange propinas e material: no ensino público, quase 80% do valor é para despesas como alojamento e alimentação; no privado, o custo das prestações é maior mas, mesmo assim, 53,5% do dinheiro serve para suportar o custo de vida dos estudantes.

O elevado preço dos cursos é uma das razões que tem contribuído para aumentar o recurso a créditos universitários: o número de alunos que pediu empréstimos passou de 1,6% do total em 2004/2005 para 4,9% no último ano lectivo. Em média, cada estudante pede 9.851 euros, um valor muito abaixo do permitido pelos bancos - são os alunos das áreas de artes, humanidades e línguas que mais recorrem a estes créditos. Veja tudo o que precisa de saber antes de se dirigir ao balcão mais próximo.

QUEM LHE EMPRESTA MAIS DINHEIRO?
Se quer estudar em Portugal, o BPI é o banco que lhe concede um crédito mais alto - até 75 mil euros. E só outros dois lhe emprestam mais 50 mil euros ou mais: a Caixa de Crédito Agrícola financia no máximo 60 mil euros e o Banif 50 mil. Em todos os outros bancos, os valores são menores: na Caixa Geral de Depósitos, onde a maior parte dos estudantes tem crédito (47,1% do total), pode pedir até 30 mil euros, tal como no Millennium bcp, no Santander Totta e no BES. Não se esqueça de que, em alguns casos, estes valores dependem do curso: no BCP, pode pedir até 15 mil euros para uma licenciatura de três anos e no máximo 30 mil para cursos de seis, como medicina. Estes são os créditos universitários dos bancos. Funcionam como qualquer outro crédito, só tem que ser estudante para o pedir. Além destes, há oito instituições cornos chamados créditos com garantia mútua, em que o próprio Estado é fiador do empréstimo - BPI, BCP, BES, Santander, CGD, Montepio, Banif e Crédito Agrícola. O valor máximo é igual em todos: até 5 mil euros por ano, no máximo 25 mil.

E SE PRECISAR DE UM CRÉDITO MAIS BAIXO?
Não é difícil negociar. Andreia Melo, de 21 anos, está no 3.º ano de Engenharia Biotecnológica da Universidade Lusófona. No 2.° ano pediu um empréstimo para pagar propinas em atraso. "Fui à CGD e o valor mínimo eram mil euros, mas expliquei-lhes que só precisava de metade. Negociámos e emprestaram-me 2.500 euros", explica. Se não quiser negociar, escolha um crédito com garantia mútua - o mínimo são 1.000 euros por ano. Outra hipótese é recorrer aos produtos do BCP, BPI e BES, onde também pode pedir apenas 1.000 euros; ou do Montepio - o mínimo são 2.000.

QUAL É A MELHOR ALTURA PARA PEDIR O EMPRÉSTIMO?
O número de pedidos aumenta entre Agosto e Outubro, mas convém antecipar-se, pelo menos se quiser pedir um crédito com apoio do Estado - os bancos têm plafonds pré-definidos, negociados anualmente com o Executivo e, quando acabam, deixam de dar estes empréstimos. Samuel Paciano, 20 anos, está no 1.° ano de Engenharia Biológica no Instituto Superior Técnico (Lisboa). Antes de assinar um contrato com a CGD foi ao BES. "Fui em Julho ou Agosto e já não tinham plafond", conta. A instituição confirma que o financiamento para o ano lectivo 2011/2012 está esgotado e "não há garantia de que esta linha seja aberta nas mesmas condições no ano lectivo 2012/2013".

Na CGD, o crédito com garantia mútua também esgotou em Abril. Os outros empréstimos são mais fáceis de conseguir a qualquer altura: a aprovação só depende do banco. De qualquer forma, se morar fora de Lisboa ou do Porto, convém antecipar-se. Cátia Correia, do 2.° ano de Economia na Universidade Nova de Lisboa, tratou do processo num balcão do Santander em Viseu. "Demorou mais porque o pedido de crédito foi avaliado em Lisboa. Até estar tudo tratado, passaram dois meses", diz. Em situações normais, depois de entregar toda a documentação, a resposta chega em 48 horas.

QUE CRÉDITOS TÊM TAXAS DE JURO MAIS BAIXAS?
Sem dúvida os créditos com garantia do Estado: o spread varia entre 0,2% e 1% e os juros são calculados diariamente. Para pedir um empréstimo destes, não pode ter processos em tribunal nem registo de incidentes no Banco de Portugal — prestações de outros créditos em atraso, por exemplo. Todos os outros empréstimos têm custos mais elevados: os spreads começam nos 3%. Ainda assim, o Banif é um dos que lhe permitem custos mais baixos: o spread é de 4%, mas pode descer para 1%.

Truque: dar um fundo de investimento, um Plano Poupança Reforma ou outra garantia, com um valor igual ou superior ao dinheiro que pediu - pode estar em seu nome, no dos seus pais ou de outro fiador. O fiador deve ser uma das suas preocupações: quando o empréstimo não tem o Estado como garantia, o banco pode exigir um - não há regra, depende sempre do seu nível de risco. Nos outros bancos, os custos são semelhantes: no Santander, o spread é de 3%, na CGD e no BPI, 3,5%, e no BCP sobe para 5,7% - além do spread, paga juros, geralmente calculados com base na Euribor a três ou a seis meses.

No caso do Crédito BESup, a taxa de juro é fixa: começa nos 14,5% e pode baixar para 10% se cumprir algumas condições - estudar numa universidade que tenha protocolo com o banco desce-a em 2%, ter média superior a 14 baixa-a 0,75% e frequentar um curso com boas hipóteses de emprego dá-lhe um desconto adicional de 1%.

COMPENSA TER BOAS NOTAS?
Se tiver um crédito com garantia mútua, sim. Quem tem média igual ou superior a 14 paga um spread muito baixo, de 0,2%; com notas entre 13 e 14, o spread é de 0,65% e abaixo de 13 aplica-se a taxa máxima - 1%. O Crédito Universitário Plus, do Santander, também tem em conta as classificações: se tiver média de 14 ou mais, o spread desce de 3,5 para 3%. Na Caixa, o melhor é ir ao balcão e pedir uma simulação: o spread pode descer de 3,5 para 2,75%, mas depende de vários factores - a média de curso, ter ou não outros produtos no banco e estudar numa instituição que tenha protocolo com a instituição (61% do total).

Cátia Correia foi a melhor aluna a entrar no 1.º ano de Economia na Universidade Nova de Lisboa (UNL), em 2010, com média de 19,5, o que lhe valeu uma bolsa de mérito de 1.000 euros (parceria Deloitte/UNL). Além disso, recebe uma bolsa social de cerca de 100 euros mensais. Mas não é suficiente para pagar as suas despesas em Lisboa. Por isso, decidiu pedir um crédito com garantia mútua ao Santander. "Todos os anos, em Setembro, tenho de entregar um certificado que ateste a minha média e que passei de ano", explica - o spread é revisto anualmente em função da sua média escolar, que neste momento é de 15 valores.

Chumbar não é boa ideia, "Avisaram-me: se chumbasse, o crédito cessava e tinha de começar a devolver o dinheiro de imediato", diz Samuel Paciano. O estudante sabia que corria esse risco e voltou à CGD para se informar. "Não me deram margem para negociar." O banco admite pedir o reembolso do empréstimo, mas apenas se o aluno tiver "dois períodos de aproveitamento negativos". Se não for particularmente bom aluno, o Banif pode ser opção: o empréstimo mantém-se, sem mudar, mesmo que chumbe.

HÁ CRÉDITOS PARA ESTUDAR FORA DO PAÍS?
Nem todos os bancos o permitem, mas é cada vez mais comum. O BPI tem uni limite de 75 mil euros para formação no estrangeiro e o Crédito Agrícola e o BES emprestam- lhe até 60 mil euros. Nestas duas últimas instituições, também está previsto o financiamento para programas Erasmus. No Crédito Agrícola, pode pedir até 30 mil euros e no BES são no máximo 20 mil, ou entre 1.000 e 2.500 se quiser financiar a viagem de finalistas - a taxa de juro é de 11% e pode pagar no máximo em três anos. No Santander Tona, o limite para formação no estrangeiro são 50 mil euros, ou 12.500 se quiser pedir um crédito misto - para estudar em Portugal e no estrangeiro.

POSSO RECEBER TUDO DE UMA VEZ?
Se pedir um crédito com garantia mútua, não é opção: recebe sempre uma prestação mensal, com um limite de 416,70 euros. Só o Santander e o BES lhe permitem pedir o dinheiro todo de uma vez: na Caixa pode escolher entre tranches mensais ou anuais, com o limite de 7.500 euros por ano em Portugal e de 12.500 no estrangeiro; no BPI, o limite máximo não está definido: recebe parcelas mínimas de 1.250, mas pode negociar valores mais altos. Já no BCP e no Banif, pode pedir o dinheiro em prestações mensais, trimestrais, semestrais ou, no máximo, anuais.

QUEM ME PERMITE PAGAR EM MAIS TEMPO?
Mais uma vez o melhor são os créditos com garantia mútua: deixam-no pagar até 10 anos e ainda tem um ano de carência, ou seja, depois de acabar o curso, não começa logo a pagar - durante 12 meses cobram-lhe apenas juros. "Começaram por ser de apenas 1 euro, no primeiro ano do empréstimo, neste momento são cerca de 10 euros e no último ano sobem até 80, o valor máximo", explica Cátia Correia. Depois, durante 10 anos, Cátia vai pagar uma prestação mensal de 223 euros. Os períodos de carência mantêm-se em muitos dos outros bancos, mas convém analisar caso a caso: no BCP, este período adicional não existe; no BPI e no Montepio, é de apenas seis meses; na Caixa, pode ser prolongado para dois anos, tal como no Santander, se se tratar de um mestrado, pós-graduação ou doutoramento. No Banif, o período de carência é de um ano, mas, durante este período, nem sequer paga juros.

Não é fácil aumentar prazos de carência. "Concederam-me o empréstimo para três anos, não três anos e meio, o que incluiria o estágio curricular de seis meses. Quando percebi, tentei prolongar o período de carência por mais seis meses, mas não foi possível", explica Patrícia Ângelo, que desde 2011 está a pagar uma prestação de 660 euros. "Também tentei tranches mais pequenas e prolongar o prazo, mas não foi autorizado." Por isso, o melhor mesmo é analisar todas as condições antes de avançar.

Credores privados
QUASE 8% dos estudantes admitem financiar os cursos com empréstimos de familiares e amigos. Dica da Deco: ofereça uma taxa de juro superior à que o seu credor receberia do banco num depósito a prazo. Mas não se esqueça de que, para um valor entre 2 mil e 20 mil euros, precisa de fazer um contrato, e acima de 20 mil euros de uma escritura pública.

 
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