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Dia da Língua e da Cultura da CPLP abraça indústria cinematográfica

Dia da Língua e da Cultura da CPLP abraça indústria cinematográfica
Fonte: 
Gabinete de Comunicação da AULP, Portugal, 2017-05-10

A AULP esteve presente nas comemorações do Dia da Língua Portuguesa e Cultura na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), que tiveram lugar na sede da CPLP, Palácio Conde de Penafiel, a 9 de maio.

A sessão de abertura teve início com as palavras da Secretária Executiva Dra. Maria do Carmo Silveira que agradeceu a presença de todos os participantes, enaltecendo o relevo dado este ano às manifestações artísticas dos Estados Membros da CPLP, que contribuem para estimular uma reflexão mais aprofundada sobre as indústrias criativas da Comunidade.

O Embaixador Gonçalo Mourão, representante da Presidência pro tempore do Brasil, apresentou o trailer do Programa CPLP Audiovisual, que tem por objetivo fomentar a produção e teledifusão de conteúdos audiovisuais nos estados membros da CPLP, através da realização de concursos nacionais de seleção de projetos de documentários e telefilmes de ficção em Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

Foram convidados para a mesa redonda "Políticas Culturais e Economia audiovisual na CPLP" três cineastas pioneiros nos seus países de origem: Leão Lopes (Cabo-Verde), Flora Gomes (Guiné-Bissau) e Lurdes Pires (Timor-Leste). A moderação do debate foi efetuada pelo ator santomense Ângelo Tores, ator e realizador do documentário "Mionga ki Ôbo: Mar e Selva", que chamou a atenção para o facto de a indústria cinematográfica na CPLP estar unida pela língua comum, apesar de continuar a ser uma indústria fraca, ou até inexistente, em muitos dos países de língua portuguesa.

Lurdes Pires, realizadora timorense, falou das suas motivações e dificuldades na realização daquele que viria a ser o primeiro filme timorense de longa metragem: "A guerra da Beatriz" (2013), do qual foi co-produtora. Após um período na Austrália, Lurdes Pires regressa a Díli em 1999, onde tinha deixado grande parte da sua família durante a invasão da Indonésia, encontrando naquela que seria a sua "casa", infra-estruturas destruídas, pessoas desalojadas, o cheiro a cinzas, o cheiro a morte. "Até hoje não consigo descrever o que eu vi", desabafou.

Ouviu muitas histórias de um povo heroico, sobrevivente, e em 2002, com a instauração da independência do país, observou o reconstruir do seu país e a definição de prioridades como a saúde pública e o saneamento. Percebeu que a cultura e o cinema nunca seriam uma prioridade, sendo os filmes feitos por estrangeiros. Apesar das dificuldades em conseguir financiamento para "A guerra da Beatriz", a cineasta acreditava que este seria um enorme contributo cultural para a reafirmação da identidade e unidade do país acabado de sair da guerra. E conseguiu, através de crowdfoundings, das Forças Armadas de Timor (que forneceram armas, fatos, figurantes, veículos militares, entre outros), da The Global Film Initiative, entre outros apoios, não necessariamente monetários mas também em género.  O filme foi vencedor de mais de uma dezena de prémios, destacando o melhor filme no Festival Internacional de Cinema da Índia.

Flora Gomes, reconhecido cineasta da Guiné-Bissau, realizador e autor de "República di Mininus", é considerado um dos fundadores do cinema africano. Falou no seu filme "Mortu Nega" (Morte Negada em português, 1988) que é o primeiro docuficção do seu país e que retrata a guerra de independência de Guiné-Bissau. O cineasta sublinha as enormes dificuldades em executar a produção de obras audiovisuais, sendo por vezes necessário 7 ou 8 anos para fazer um filme, uma vez que as prioridades do governo não englobam a indústria cinematográfica.

Leão Lopes, antigo Ministro da Cultura de Cabo-Verde (1991-2000), realizador de cinema, escritor, artista plástico e professor universitário, fala da sua experiência, sublinhando a importância do cinema na educação linguística dos cabo-verdianos que viam nos filmes portugueses uma forma de aprenderem e aperfeiçoarem a língua portuguesa. Inspirado pela arte de Flora Gomes, Leão Lopes, formado em Belas Artes, decidiu fazer um filme, mas poucas pessoas acreditaram que este fosse capaz, até fazer "O Ilhéu de Contenda" (1996), a primeira longa-metragem de ficção cabo-verdiana, realizada com o apoio do, entretanto extinto, Instituto Cabo-verdiano de Cinema.

No debate que sucedeu às intervenções dos cineastas convidados, foi sugerido uma maior pressão da CPLP junto dos Estados membros para a priorização da indústria cinematográfica que ajudaria na afirmação identitária dos países de língua portuguesa. Lurdes Pires, que produziu recentemente o documentário "A Criança Roubada" (a estrear na RTP2 a 23 de julho), sublinha que "A guerra de Beatriz" nunca passou na televisão timorense, pois apesar de este ter sido cedido para o efeito, a Televisão exigiu o pagamento de uma verba, dificultando assim a difusão do filme no próprio país.

O 5 de maio, instituído como o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na CPLP, a 20 de julho de 2009, por resolução da XIV Reunião Ordinária do Conselho de Ministros da CPLP, decorrida na cidade da Praia, Cabo Verde, foi este ano também celebrado com a estreia de um documentário produzido no âmbito do Programa CPLP Audiovisual, intitulado “Do Outro Lado do Mundo”, do realizador angolano, Sérgio Afonso, com produção de Tchiloia Lara, que aborda a crescente presença chinesa em Angola.

Neste dia, foi ainda inaugurada uma exposição alusiva ao 20º aniversário da CPLP, um projeto conjunto com a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia (ULHT) - Centro de Estudos Interdisciplinares em Educação e Desenvolvimento e o Departamento de Museologia Social da ULHT. A exposição tem como objetivo a sua utilização num contexto pedagógico, podendo ser enviada, em formato digital, para as instituições com interesse na CPLP, bem como escolas dos Estados membros.

As indústrias criativas podem ser difíceis, mas valem a pena fazer, lutar, insistir... Pegando nas palavras proferidas durante o debate, todos os cineastas dos países de língua portuguesa estão de parabéns, pois "em vez de reclamar da falta de luz, estão a acender velas".

A guerra da Beatriz
A República di Mininus
Mortu Nega
Ilhéu de contenda