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RILP - III Série, nº28/29 (2015)

RILP - III Série, nº28/29 (2015)

Texto de abertura do editor científico.

Por mares nunca dantes navegados: rotas portuguesas de mercadorias, mercadores e saberes – Portugal, os novos mundos e a Europa

A partir do início do século XV, Portugal voltou-se para o vasto oceano Atlântico que, desde sempre, banhara suas costas, e deu início a um empreendimento marítimo, de caráter estatal-privado, cujos alcances foram cada vez mais amplos. A cronologia desse avanço se estende por vários séculos e sua geografia é por demais conhecida: Entre tantos outros, Madeira, Canárias, Açores, Cabo Branco, Cabo Verde, Cabo Bojador, Cabo da Boa Esperança, Índia, Brasil, Timor, Molucas, China, Japão foram locais onde aportaram, pela primeira vez, as caravelas dos portugueses.

Durante esse longo processo, este pequeno país revelou outros mundos, outros povos, outros produtos e outros saberes, todos denominados “novos”, por serem até então relativamente ou absolutamente desconhecidos dos europeus. Mas, à medida que o empreendimento avançava, Portugal estabelecia entrepostos, feitorias, conquistas e colônias que, ao se estenderem pelas quatro partes do globo, acabaram por se entrelaçar numa rede de intercâmbio que adquiriu contornos mundiais. Oceanos e mares que, até então, haviam separado a Europa dos demais continentes, tornaram-se, a partir daí, espaços privilegiados de contato, de trânsito e de interação entre esses espaços distantes. Nesse processo, os portugueses que haviam sido pioneiros, permaneceram, nos séculos que se seguiram, sendo seus principais atores. Essa empreitada envolveu inúmeros agentes oriundos dos mais diversos estratos sociais, entre nobres, mercadores, oficiais mecânicos e escravos, os quais eram empregados nas mais diversas funções e atuavam conectando os distintos pontos dispostos ao longo das rotas comerciais que se estabeleceram na sequência das conquistas portuguesas de além-mar.

O tema desse dossiê versa exatamente sobre algumas dessas rotas que os portugueses estabeleceram e consolidaram ao longo desse processo de expansão marítima. Não se trata apenas de abordar as rotas comerciais em si, as quais permitiram fazer chegar à Europa as desejadas especiarias e mercadorias tropicais - entre tantas outras, o sândalo, o açúcar, o cacau e o azeite de baleia – o que, no entanto, é o ponto de partida dos diversos artigos. Trata-se também de revelar o trânsito nessas rotas para além das mercadorias comercializadas como o de pessoas, de objetos, de práticas e de saberes, sendo que os navios portugueses, à medida que cruzavam as águas oceânicas, se tornavam dessa maneira verdadeiras caravelas de cultura.

Nesse contexto, a escravidão, reinstituída segundo uma nova lógica, o escravismo moderno, foi experiência ímpar, que provocou uma transumância forçada nunca antes vista na história da humanidade. A rota dos escravos impactou tanto as comunidades africanas de origem, de onde homens e mulheres eram continuamente arrancados no intuito de alimentar o tráfico negreiro, quanto as comunidades onde esses eram submetidos ao cativeiro, especialmente as Américas, a Europa, e as ilhas atlânticas. Portanto, interessa perscrutar não só os agentes – marinheiros, mercadores portugueses ou estrangeiros, reis e rainhas africanas, agricultores, como abordado em vários artigos, - envolvidos no comércio transatlântico, inclusive o negreiro, quanto os próprios cativos e também as sociedades onde eles foram escravizados, as quais também foram fortemente impactadas por esse processo.

Interessa ainda abordar a geografia dessa expansão. E, nesse caso, procurou-se estabelecer um diálogo em duas mãos, isto é, tanto de Portugal em relação aos Novos Mundos, quanto deste em relação à Europa, pois os portos italianos e os dos Países Baixos – católicos e protestantes –, por exemplo, tornaram-se pontos importantes de reexportação dos produtos trazidos pelos navios portugueses para os mercados europeus, como examinado em dois artigos.

Por fim, questiona-se também o fluxo dessa rota, insurgindo-se contra a ideia de que esta era unicêntrica, ou seja, tudo partia ou chegava de um único espaço, Portugal, dali sendo direcionado para as diversas conquistas espacialmente distantes e desconectadas entre si. Ao contrário, eram redes (no plural) multicêntricas por natureza, que podiam unir apenas dois ou mais espaços coloniais, sem envolver o reino ou os mercadores reinóis, como foi o caso do comércio negreiro estabelecido entre as praças do Rio de Janeiro e Salvador e alguns portos africanos, como Angola e a Costa da Mina, e o comércio baleeiro estabelecido entre as duas primeira praças, aqui também abordados. Outro questionamento versa sobre o sentido desse fluxo. Nesse caso, interroga-se a noção de que havia uma única direção fixa, isto é, enquanto especiarias e produtos primários partiam das colônias em direção à Portugal, dali fluíam os produtos manufatureiros, os conhecimentos e as práticas especializadas. Muito ao contrário, produtos das mais diversas naturezas – primários ou manufaturados – eram produzidos em diversas pontos do império, sendo a partir deles intercambiados em direções múltiplas, inclusive em direção ao reino, o que ocorria também com as práticas, os saberes e os conhecimentos.

A primeira parte deste dossiê, intitulada “Produtos”, reúne artigos que se debruçam sobre a análise de como o comércio de determinados artigos, impactaram as sociedades que se conectaram entre si nessas rotas comerciais.

A rota do sândalo em Timor Leste foi o tema explorado por Vicente Paulino, que destacou seu impacto sobre a sociedade local, ali criando uma mescla de gentes e culturas. A rota direta que se estabeleceu entre o Rio de Janeiro e os Açores para a extração e o comércio do azeite de baleia é o tema do artigo de Margarida Machado. A exploração do cacau na ilha de São Tomé e Príncipe é abordado no artigo de Maria Nazaré Ceita, o qual analisa o impacto que sua produção exerceu sobre as áreas urbanas e rurais da ilha. Odílio Fernandes descortina o interesse da Coroa portuguesa, no início do seculo XVI, em aceder às riquezas materiais, principalmente metais preciosos como a prata, no reino do Ndongo.

Os livros, que transitaram entre diversos espaços do império português, não eram apenas simples mercadorias, pois se convertiam em vetores de transmissão de conhecimentos, são examinados em dois artigos. Mariana Sales analisa as bibliotecas jesuíticas da América portuguesa, cujos livros divulgavam a cultura judaico-cristã nos Novos mundos, tendo sido usados, principalmente, para a conversão dos nativos ao catolicismo. Já José Newton Meneses aborda a transmissão de saberes técnicos agrícolas entre a Portugal e o Brasil, a partir do fluxo de compêndios especializados sobre o tema, servindo para promover o desenvolvimento e aperfeiçoamento de novas práticas agrícolas.

A segunda parte intitula-se “Agentes” e aborda o componente humano envolvido nessas rotas, inclusive enquanto mercadorias, caso dos escravos africanos.
A gestão, as redes e as estratégias mercantis de alguns produtos são examinados em alguns artigos. Entre as inúmeras comunidades de comerciantes estrangeiros que se estabeleceram em Lisboa, a dos italianos é estudada por Nunziatella Alessandrini, que se debruça sobre o seu papel e as conexões que formaram entre essa praça e a Península Ibérica. Daniel Strum aborda os comerciantes da rota do açúcar, cujas redes se estenderam desde o Brasil, passando por Portugal, até diversas praças europeias, especialmente Amsterdam, onde o produto era comercializado na bolsa local. Já Leonor Freire Costa e Maria Manuela Rocha examinam as redes que se estruturam na rota do ouro brasileiro, produto que descoberto em abundância nas Minas Gerais, no século XVIII, fez prosperar e redirecionou todo o trânsito mercantil português durante esse século. E a trajetória do mercador e armador Pero Vaz Siqueira, que atuou em Macau no último quartel do século XVII, serve como pano de fundo para que Leonor Diaz de Seabra e Maria de Deus Manso descortine o envolvimento de mercadores portugueses nas rotas locais orientais.

Por fim, dois artigos examinam as rotas dos escravos, redes que tiveram, a partir da África, alcance mundial e que os portugueses estruturaram desde os primórdios da expansão marítima ainda no século XV, na qual também atuaram mercadores nascidos nas conquistas, especialmente os brasileiros. Os escravos forneceram a força de trabalho necessária à produção de um sem números de produtos tropicais, os quais foram comercializados em diferentes rotas em múltiplos sentidos. Lourenço Gomes detém-se no impacto que a escravidão moderna exerceu sobre o arquipélago de Cabo Verde, um dos destinos finais e ponto de passagem dos cativos, acabando por configurar aí uma sociedade própria, cuja especificidade espelha a chamada cabo-verdianidade. Já o artigo de Benigna Zimba versa sobre o outro lado dessa mesma moeda, abordando o impacto que a escravidão exerceu nas próprias sociedades africanas fornecedoras dos escravos ao tráfico negreiro. Nesse caso, mesclando uma análise de gênero e social, analisa as rotas da Rainha Achivanjila em Moçambique, em fins do século XIX.

Júnia Ferreira Furtado
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

Atualmente este número encontra-se em distribuição.

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