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“O doutoramento terá que ser o passo seguinte para o desenvolvimento dos politécnicos”

“O doutoramento terá que ser o passo seguinte para o desenvolvimento dos politécnicos”
Fonte: 
Público, Portugal, 2016-12-06

Nuno Mangas diz que se os institutos politécnicos se chamassem "universidades politécnicas" as pessoas olhariam de forma mais positiva para este sector.

Há cerca de um mês houve uma tomada de posição de 13 presidentes de Conselhos Gerais de Institutos Politécnicos defendendo a capacidade de os politécnicos outorgarem doutoramentos. Este vai ser um tema marcante no seu mandato?
Espero que sim. Esta questão é central. Somos uma realidade muito recente do ensino superior em Portugal e tivemos nas últimas décadas uma evolução notável. O doutoramento terá que ser o passo seguinte para o desenvolvimento dos politécnicos.Advertisement

O que é que existe hoje que não existia há 20 anos e que torna isso possível?
Houve um salto muito grande ao nível da qualificação do corpo docente dos politécnicos e que é a pedra basilar para que possamos hoje ter esta exigência. Hoje há também um conjunto de infra-estruturas científicas nos politécnicos e uma experiência de colaboração com as empresas e a sociedade que antes não existiam. As nossas empresas, instituições e territórios precisam que os politécnicos possam atribuir doutoramentos.

Qual é a dificuldade para concretizá-lo?
Neste momento, a limitação é legal. O facto de uma instituição se chamar instituto politécnico impede-a, por lei, e logo à partida, de poder atribuir o grau de doutor. A distinção não é feita com base na competência, mas naquilo que a lei permite que cada um dos subsistemas possa fazer.

O ministro Manuel Heitor já disse que estava contra essa possibilidade, ainda que num primeiro momento lhe tenha aberto a porta. Em que ponto estão essas conversas com a tutela?
Não conversei com o senhor ministro recentemente sobre esta matéria. O que estamos a procurar é construir um caminho para que isso seja possível. Nós não queremos fazer isto contra ninguém, queremos fazer isto com todos.

Há uma representação social diferente do que são politécnicos e as universidades. Muda-se isso pela afirmação do trabalho das nossas instituições, mas também acho que a palavra instituto no nome das nossas instituições as menoriza. Esse era um problema que poderia ser ultrapassado

Nuno Mangas

Importa explicar que doutoramentos querem os politécnicos ter.
O doutoramento teve uma evolução muito grande na última década e meia. Antes, eram sobretudo os professores das universidades e nos politécnicos que o faziam, mas hoje isso mudou por completo. Há uma grande vertente de aplicação de conhecimento e de preparação de pessoas altamente qualificadas associada aos doutoramentos e que é fundamental para as empresas e instituições. Nós propomos responder a esta nova necessidade, tendo em consideração as realidades de cada um dos territórios em que estamos.

E não podem ser as universidades a fazê-lo?
Há determinadas áreas de formação como a enfermagem, o turismo ou o design que, se não estão exclusivamente, estão maioritariamente nos politécnicos. Em algumas dessas áreas, os politécnicos têm as competências, o pessoal qualificado e a experiência, mas depois têm que se associar a uma universidade para que seja esta a atribuir o grau. Dou-lhe um exemplo: temos um conjunto de pessoas a fazer os doutoramentos nos politécnicos, com bolsas da Fundação para a Ciência e Tecnologia, mas que têm que estar formalmente inscritas numa universidade. Isso não faz sentido e tem que ser alterado.

Qual seria a mais-valia para quem procura um doutoramento?
A ligação ao território, às empresas, ao saber-fazer. Um doutoramento num politécnico terá uma componente mais aplicada. Tem-se falado muito em doutoramentos em empresas. Os politécnicos estão tão bem ou melhor preparados do que algumas das nossas universidades para fazê-los.

Quais serão as outras prioridades para o seu mandato?
Um dos grandes temas é o prosseguirmos este trabalho de afirmação e de consolidação das instituições na nossa sociedade. A internacionalização também é um desafio enorme, a diferentes níveis, quer ao nível da aplicação das melhores práticas no contexto europeu, quer ao nível da captação dos estudantes estrangeiros. Depois, a ligação à sociedade: as nossas instituições estão muito próximas das populações, das regiões em que se inserem, mas há que potenciar isso.

Os politécnicos ainda não ultrapassaram um certo preconceito sobre a qualidade da sua formação. Como é que se responde a isso?
Há uma representação social diferente do que são politécnicos e as universidades. Muda-se isso pela afirmação do trabalho das nossas instituições, mas também acho que a palavra instituto no nome das nossas instituições as menoriza. Esse era um problema que poderia ser ultrapassado.

A possibilidade de alteração da designação de instituto politécnico para universidade de ciências aplicadas já tinha sido defendida anteriormente. Vai voltar a ser uma luta do CCISP?
Há uma dimensão internacional, de comunicação em língua inglesa. Nos diferentes países europeus, as instituições mantêm o nome no país de origem, mas depois, no contacto internacional, designam-se como universidades de ciências aplicadas. Devíamos fazer o mesmo.

Seria precisa uma autorização do Governo para poderem usar essa designação ou é só uma questão de marca?
Era importante que existisse uma autorização para esse efeito e é uma das questões que está em cima da mesa. No contexto nacional, penso que uma designação como 'universidades politécnicas' provavelmente ajudaria a que as pessoas olhassem de forma mais positiva para o sector.