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Investigador da ESEnfC constrói modelo que ajuda profissionais de saúde a cuidarem melhor de adolescentes com doença oncológica

Professor Manuel Gameiro
Fonte: 
Escola Superior de Enfermagem de Coimbra, Portugal, 2016-12-06

Teoria desenvolvida vem tornar acessível um conjunto de elementos que facilitam a interpretação compreensiva dos adolescentes com cancro hematológico e, por consequência, intervenções mais esclarecidas ao nível dos cuidados. Pais também podem beneficiar deste conhecimento.

Um professor da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC) construiu «um modelo teórico compreensivo das experiências e processos adaptativos dos adolescentes com doença onco-hematológica durante o tratamento», que vai permitir, segundo se espera, a prestação de cuidados mais adequados aos doentes.

Manuel Henriques Gameiro, especialista em Enfermagem de Saúde da Criança e do Adolescente, desenvolveu uma «teoria fundamentada nos dados», tendo por base 27 testemunhos sobre as experiências de 23 adolescentes com leucemia ou linfoma, a qual vai facilitar «uma maior compreensão empática dos adolescentes em situação e uma intervenção cuidativa mais esclarecida e efetiva, por parte dos enfermeiros, dos restantes profissionais envolvidos e, igualmente, dos pais», explica o investigador.

«Os testemunhos referem-se, sobretudo, às experiências vividas e aos processos de enfrentamento, ajustamento e adaptação à situação de doença e tratamentos. Estes processos são fundamentais para manter a esperança e a disposição para “continuar a lutar” durante o longo e penoso tempo de tratamento», afirma Manuel Gameiro (FOTO EM ANEXO).

Uma vez que «cada adolescente experiencia a doença de modo diverso e desenvolve esforços de adaptação próprios», o modelo teórico agora construído «pode ajudar a fazer previsões, não propriamente sobre a probabilidade estatística das ocorrências e situações, mas sim sobre o seu sentido e possibilidade humana, que necessita sempre de ter em conta cada ser humano como indivíduo em situação, isto é, que não dispensa a sua escuta e a interpretação da sua narrativa», esclarece o professor da ESEnfC.

Segundo este modelo, e no confronto com experiências de mal-estar, de stresse intenso e de sofrimento na doença, há «três movimentos adaptativos fundamentais, complementares e interativos» a que os adolescentes recorrem e que Manuel Gameiro designa por “Esforços de autorregulação e ajustamento à situação de doença”, “Esforços para promover e manter um estado disposicional positivo” e “Esforços para lidar com situações referenciais de sofrimento”.

Entre as estratégias gerais para enfrentar e superar a situação de doença e tratamento, os adolescentes analisados no estudo procuram, por exemplo, desconcentrar-se da doença, manter o contacto com amigos, preservar um “autoconceito positivo” e conceber “novos motivos para lutar”.

Já quanto a estratégias específicas para promover um “estado disposicional positivo”, os adolescentes procuram divertir-se, manter projetos, atividades e papéis relevantes, atribuir significados positivos a coisas e acontecimentos comuns, pensar de forma positiva, controlar as emoções negativas e prezar o bem-estar relacional e afetivo.

A amostra do estudo foi composta por 23 adolescentes, com idades compreendidas entre os 12 e os 19 anos, 17 dos quais referenciados no Serviço de Oncologia Pediátrica do Hospital Pediátrico de Coimbra. A maioria encontrava-se ainda em fase de tratamento, alguns na fase final (dita de manutenção) ou nos primeiros meses após o termo do tratamento. Alguns testemunhos foram obtidos através de entrevistas. Outros adolescentes, tratados em diversos hospitais do país, postaram os respetivos testemunhos em sítios na Internet relacionados com a oncologia. Os achados foram obtidos entre 2013 e 2014.

Este trabalho de investigação de Manuel Gameiro conduziu à tese de doutoramento “Processos e Experiências de Transição Adaptativa dos Adolescentes com Doença Onco-Hematológica Durante o Tratamento”, defendida em outubro último na Universidade de Lisboa.

Atualmente, mais de 85% dos adolescentes com este tipo de cancros sobrevivem.