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“Universidade da Cidade de Macau está focada no aumento da qualidade dos cursos”

Zhang Shu Guang
Fonte: 
Jornal Tribuna de Macau, Macau, 2015-12-21

O novo reitor da Universidade da Cidade de Macau quer apostar na formação de trilingues e na criação de cursos inter-áreas que permitam aos profissionais do futuro ter competências em áreas como a economia, o comércio ou a “comunicação intercultural”. Em entrevista ao JORNAL TRIBUNA DE MACAU, Zhang Shu Guang revela ainda que pretende focar-se também no desenvolvimento de vertentes como as ciências sociais, artes e gestão, para ir ao encontro do objectivo do Governo de tornar a RAEM numa plataforma entre a China e os países lusófonos e num Centro Mundial de Turismo e Lazer.

-A Universidade da Cidade de Macau (UCM) transferiu a sua sede para o antigo campus da Universidade de Macau neste ano lectivo. Quais foram as principais consequências dessa mudança?
- Foi uma mudança enorme. Embora seja uma instituição nova no território, a UCM tem ligações profundas ao desenvolvimento do ensino superior de Macau. No período da administração portuguesa, o ensino superior era quase inexistente. A partir da criação da Universidade da Ásia Oriental, Macau entrou numa era durante a qual foi dado o pontapé de saída para a criação do ensino superior moderno. A UCM é uma entidade sucessora da Universidade Aberta Internacional da Ásia (Macau), que surgiu após a criação da Universidade da Ásia Oriental. Assim cresceu o ensino superior do território. Os antecessores da UCM acompanharam o desenvolvimento do ensino universitário, por isso, era lamentável que a instituição não tivesse um campus, sobretudo porque temos como missão formar os talentos necessários ao progresso económico e social da RAEM. O antigo campus da Universidade de Macau foi distribuído por três instituições de ensino superior: a UCM, o Instituto Politécnico e o Instituto de Formação Turística. A ideia foi estabelecer uma cidade académica, fortalecendo o espírito da instituição, o que gera mais confiança no desenvolvimento das nossas actividades. Em segundo lugar, melhorámos as condições das nossas instalações. Embora continuem a existir algumas limitações, as condições melhoraram muito. Ao estar localizada na Taipa, a UCM pode também contribuir para o desenvolvimento da sociedade e da comunidade.

- Há algum plano específico para adaptar as actividades lectivas ao novo campus?
-A UCM é uma instituição privada, mas sem fins lucrativos. Possui identidade como pessoa colectiva de direito público. As receitas da instituição chegam de três fontes: as propinas, subsídios do Governo e doações da sociedade. Este contexto exige que utilizemos os nossos recursos para a educação e ao serviço da sociedade. A nossa principal tarefa passa por maximizar os nossos recursos limitados para benefício da sociedade. Há dois processos importantes na nossa actividade: um é o melhoramento do regime administrativo, outro é o aperfeiçoamento da direcção académica. Estamos concentrados nessas duas acções. Agora temos um campus muito bom, com uma atmosfera mais natural. Dar melhor ambiente de estudo aos nossos alunos era uma das nossas prioridades. Estamos também a trabalhar para melhorar a qualidade dos cursos e o nível das nossas investigações. Queremos melhorar, mas é preciso recordar que isto é apenas um ajustamento de algo que já existe. Não estamos a introduzir elementos novos. A Universidade de Macau e o Instituto Politécnico passam por processos semelhantes. Se assim não for, as instituições perdem dinamismo.

- Um campus de maiores dimensões significa um aumento do número de alunos?
-Estamos ainda a definir os planos concretos para cumprir os requisitos do Governo para os próximos cinco anos. Em primeiro lugar, temos como objectivo afirmar-nos enquanto universidade que disponibiliza cursos de licenciatura, mestrado e doutoramento. Isto não significa que iremos incluir cursos na área das ciências naturais, por exemplo, como acontece na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau e na Universidade de Macau, até porque pretendemos desenvolver-nos de forma diferente. Vamos planear as nossas acções futuras de acordo com as nossas características e as necessidades do território.

- O Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES) garantiu que iria celebrar com a UCM um acordo que previa o cumprimento de algumas regras em troca de parte do antigo campus da UM. Em concreto, o que está em causa?
- Penso que todas as universidades têm autonomia. O Governo dá-nos muito apoio e orientações. Segundo percebi, antes da tomada de posse como reitor, estas orientações são específicas e têm como objectivo elevar a qualidade do ensino. Isso não é só para nós, também para as outras instituições. Julgo que não há uma obrigatoriedade, por exemplo, ao nível da publicação de artigos. Agradecemos todas as orientações que o GAES nos der para melhor aproveitamento dos nossos recursos humanos. Isso mostra que o Governo é responsável.

- A UCM vai concentrar-se no desenvolvimento de alguma área específica de ensino?
- Vamos focar-nos nas humanidades, artes, ciências sociais e gestão. Tentaremos fazer um cruzamento entre os cursos, criado alguns programas de formação especiais. Visto que Macau pretende desenvolver-se enquanto plataforma entre a China e os países lusófonos e como Centro Mundial de Turismo e Lazer, estamos a tentar contribuir para este objectivo através da formação de mão-de-obra qualificada. Temos um curso de turismo nos graus de licenciatura, mestrado e doutoramento. Exigimos que os alunos sejam bilingues. Além disso, estamos a preparar cursos para formar profissionais trilingues, que falem chinês, inglês e português, vocacionados para o sector do comércio. Em Macau há falta de profissionais que tenham conhecimentos de economia, comércio e comunicação intercultural. Além disso, são necessários mais quadros trilingues na área do Direito, e isto está relacionado com a língua portuguesa. Nem Macau, nem a própria comunidade lusófona da RAEM, têm este género de profissionais.

- O curso de Português da UCM está a ser preparado desde 2012. Qual é o ponto de situação desse processo?
-Ainda não há novidades, é um processo moroso. É preciso passar por uma avaliação interna, além de receber a autorização do Governo para começar a ser testado e devemos ainda introduzir uma terceira entidade para avaliar a composição do curso.

-Os indicadores do ensino superior de Macau referem que a UCM tinha um total de 2.990 estudantes no ano lectivo 2013/2014. Porém, segundo revelou, este ano a instituição já tem mais de 5.300 alunos. Prevê que esta tendência de aumento se mantenha?
- Temos passado por uma fase de transformação, estamos a explorar novos modelos. Em 2013/14, a maior limitação era a falta de espaço. Agora a situação melhorou, os cursos foram sendo aperfeiçoados e ficaram mais maduros. Felizmente, este ano recebemos muitos novos alunos, batendo um recorde de admissões. Há mais de 1.600 novos estudantes, dos quais cerca de 900, ou seja mais de metade, são residentes de Macau. Temos cursos em regime pós-laboral para aqueles que trabalhem durante o dia.

-O GAES definiu 6.000 alunos como o tecto máximo da capacidade do novo campus na Taipa. Isso irá dificultar o recrutamento de estudantes no futuro?
-Estamos muito cientes da existência desse limite e garanto que a nossa dimensão vai crescer de forma adequada. Agora, o nosso objectivo está focado no aumento da qualidade dos cursos. O alargamento do recrutamento dos alunos não é a nossa principal preocupação. O Governo fixou um limite, por isso, não vamos ultrapassar esse número no novo campus na Taipa. Mesmo se enfrentarmos dificuldades por termos este limite, posso dizer que não vamos recrutar tantos alunos como este ano, por forma a cumprir esse requisito.

- A proporção de alunos de mestrado é elevada relativamente às outras universidades de Macau?
-Isso é uma das características da UCM. No início, a organização da escola tinha uma inclinação para os cursos de mestrado e, por isso, o segundo ciclo de estudos está mais diversificado do que a licenciatura. Esta estratégia está a responder à descida do número dos alunos do ensino secundário em Macau, o que resulta em menos procura dos cursos de licenciatura por parte dos estudantes locais. Ao mesmo tempo, outras instituições do ensino superior no território têm planos e condições para alargar a dimensão do recrutamento para licenciaturas. Por isso, sem dúvida, iremos continuar a assegurar a nossa especialidade nos cursos de mestrado, sobretudo concentrar-nos nos cursos inter-áreas e dar mais importância à vertente prática do ensino.

-Como funcionam os cursos inter-áreas?
- Macau não precisa apenas de licenciados em Economia, por exemplo. Precisamos de pessoas que percebam tanto de Economia como de Direito. Por isso, tem que haver cursos que abordem temáticas do Direito sem ter como objectivo formar advogados. Porém, isso também não chega. Podemos adicionar ainda uma componente de língua portuguesa e de cultura lusófona. Estes cursos podem elevar as capacidades profissionais dos estudantes, sobretudo no que respeita à comunicação entre culturas. Quanto ao curso de design, esperamos que os nossos alunos possam criar produtos criativos. Não basta ter conhecimentos sobre arte, é preciso ter visão comercial. É preciso que os artistas conheçam o mercado. Uma pessoa pode saber muito sobre o seu meio mas nunca será bem-sucedida se não souber como vender os produtos que cria. É preciso que cada um saiba gerir o seu próprio negócio.

-A proporção de pessoal docente a tempo inteiro da UCM ficou-se pelos 29,41% no ano lectivo 2013/2014. Tem encontrado alguma dificuldade na contratação de professores?
-Todas as universidades privadas em Macau encaram desafios, como disse, por terem recursos limitados. Usar os recursos da melhor forma possível ao serviço do ensino é uma obrigação de todas as universidades do mundo. Felizmente, temos algumas vantagens nesse sentido. Em primeiro lugar, o Governo dá-nos apoio, sobretudo através do GAES. Existe o fundo especializado para formação dos professores. A Fundação Macau também tem apoiado muito as universidades do território. Além disso, estamos optimistas quanto à revisão da lei do ensino superior que prevê a criação de um fundo que pode subsidiar directamente os professores, como já acontece no ensino não-superior. Existe ainda a Comissão de Desenvolvimento de Talentos que visa atrair residentes que foram para o estrangeiro. Muitos dos que regressam ao território têm doutoramentos tirados lá fora e possuem experiência de ensino. Estas pessoas são muito bem-vindas à UCM. A nossa prioridade será contratar residentes que voltem para Macau. O Governo apoia ainda a importação de professores e este ano temos alguns docentes novos que foram contratados no exterior. Temos um australiano e outro dos Emirados Árabes Unidos. Para facilitar o recrutamento, apesar de ter sido uma decisão difícil, cedemos o prédio da residência aos docentes. Num espaço de 600 pés quadrados, têm que caber duas a três pessoas. Isso é um grande desafio.

-Há quem acuse o Executivo de distribuir o financiamento de forma desequilibrada, dando mais apoios por exemplo à UM, devido a atrasos na revisão da lei do ensino superior. Sente esse desfasamento?
-A Universidade de Macau ocupa o primeiro lugar do ensino superior local e representa a imagem da RAEM, por isso, o Governo apoia muito este projecto. É agradável vermos o grande desenvolvimento da UM e esperamos que esta experiência possa beneficiar-nos. Mas não vou comentar a lei.

- Há quem entenda que o Governo de Macau adoptou o modelo de reforma do ensino superior do Interior da China que procura diminuir a burocracia nas universidades. A revisão da lei do ensino superior vai nesse sentido? Reconhece essa orientação?
-Isso é um mal-entendido. A redução da burocracia nas universidades em Macau e no Interior da China é uma concepção absolutamente diferente. No Interior da China, as universidades são classificadas em diferentes níveis. O  regime administrativo prevê que os lideres da universidades sigam uma carreira profissional como os funcionários públicos. Redução da burocracia na China significa um maior afastamento entre as Universidades e Governos. As instituições de ensino superior não têm vice-reitores para  se responsabilizarem pelos assuntos académicos. Este problema não existe em Macau, pelo menos na UCM.

- Era vice-reitor de uma universidade em Xangai, quando os alunos dessa instituição obtiveram os melhores resultados nalguns rankings internacionais. Apesar de Macau não estar tão bem classificado como Xangai, como caracteriza os estudantes do território?  
-Não é uma questão para um educador, é uma pergunta com valor comercial. Sinto-me frustrado quando me colocam questões deste género. Para mim, estamos a comparar maçãs e laranjas. As pessoas têm diferentes características. Não existe um género de mau aluno. Quando trabalhava na Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, os alunos recrutados naquela altura não tinham boas notas, mas disse-lhes para não se sentirem mal por falhar num exame. Além disso, garanto-lhes que o nosso objectivo é educá-los para serem melhores do que alunos que tenham tido boas notas no exame nacional.

-Como vê o trabalho desenvolvido pelo Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura, Alexis Tam, na área da educação?
-Respeito muito Alexis Tam. Tive vários encontros com ele, penso que é uma pessoa competente e com paixão pelo seu trabalho. É alguém que tem mesmo capacidade para fazer algo por Macau. Agradeço sobretudo por ele dar muito apoio ao desenvolvimento do ensino superior.