Entrevista a Eugénio Anacoreta Correia, Coordenador da Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua Portuguesa.
AULP - Como surgiu a ideia da Conferência "Língua Portuguesa, Sociedade Civil e CPLP"?
Anacoreta Correia - A ideia surgiu depois do sucesso que alcançou a conferência "A Sociedade Civil no Plano de Ação de Brasília", que, por iniciativa de cinco organizações e com a coordenação do Observatório da Língua Portuguesa, se realizou na Academia das Ciências de Lisboa, em 31 de janeiro deste ano. Na sequência desse êxito, muitos participantes nos questionaram sobre o "passo seguinte". Nasceu, assim, a ideia de promover um evento aberto à colaboração de organizações da sociedade civil de todo o espaço onde a Língua Portuguesa é falada. A hipótese evoluiu em diálogo entre a Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP) e o Observatório. Em junho deste ano, durante o XXIII Encontro da AULP, em Minas Gerais, no Brasil, a Secretária Executiva da AULP propôs ao Secretário Executivo da CPLP a realização desta conferência a ter lugar na Universidade do Algarve. Porquê a Universidade do Algarve? Por reunir vários pontos favoráveis aos objetivos da Conferência. Desde logo uma elevada frequência de alunos naturais de vários países de língua portuguesa; somou-se a isso a excelência das instalações e a importância do apoio assegurado pelo Reitor e Vice-Presidente da AULP, Professor João Guerreiro, um universitário com longa experiência de África.
Finalmente, durante o encontro que o Secretariado Executivo da CPLP manteve com os Observadores Consultivos da Comunidade, em 26 de junho, a Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua Portuguesa manifestou a sua disponibilidade para organizar uma conferência sob o tema "Língua Portuguesa, Sociedade Civil e CPLP", proposição que teve aceitação unânime.
AULP - Quais foram os critérios para definição dos temas da Conferência?
AC - Quisemos enfatizar a importância que a sociedade civil tem na promoção, na difusão e na projeção da Língua Portuguesa chamando a atenção para três domínios concretos em que a sua intervenção é determinante.
O primeiro é o Ensino, onde a importância das escolas e universidades privadas é incontornável e onde a ação que associações diversas (Fundações, ONG, etc.) desenvolvem quer junto de comunidades emigradas quer em ações de cooperação para o desenvolvimento é muito relevante. É o caso, por exemplo, da Fundação Gulbenkian ou do Instituto Marquês Valle-Flor com um longo e reconhecido trabalho que as consagra como referências na promoção da Língua.
Um segundo aspeto diz respeito à Comunicação Social, através dos meios tradicionais: a televisão, a rádio e a imprensa. Procurámos envolver a TV Globo, que é a maior televisão no espaço lusófono; a Rádio Renascença, que tem uma vasta rede de parcerias com emissoras locais e regionais da Igreja Católica e, finalmente; o jornal de língua portuguesa mais difundido em todo o mundo – "A Bola". Fazemos, assim, uma chamada de atenção para o desporto como elemento de afirmação da língua e para eventos como o Campeonato do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos, que decorrerão no Brasil, respetivamente, em 2014 e 2016, eventos que vão pôr a Língua Portuguesa no topo da atualidade.
Um terceiro aspeto em que a sociedade civil é fundamental para a promoção da língua é a atividade económica. Por isso, tivemos uma conferência sobre o valor económico da língua e as relações empresariais. Em resumo, a conferência teve três painéis em que os temas foram o ensino, a comunicação social e a atividade económica.
AULP - Por que razão promoveram a Conferência da Língua Portuguesa, Sociedade Civil e CPLP antes da Conferência Internacional?
AC - No final de outubro, realizou-se, em Lisboa, a "2ª Conferência Internacional sobre o Futuro da Língua Portuguesa no Sistema Mundial". Esta 2ª Conferência fez um balanço do grau de implementação do Plano de Ação de Brasília aprovado em 2010; um dos seis eixos em que se estrutura o Plano de Ação de Brasília, diz respeito à intervenção da sociedade civil na promoção, difusão e projeção da Língua Portuguesa. Esta nossa conferência pretendeu contribuir para a reflexão e o debate que na 2ª Conferência se fez sobre o papel reservado à sociedade civil no esforço por uma maior afirmação da Língua Portuguesa no panorama mundial, o que foi feito e o que é necessário realizar. Essa é a razão por que a conferência de Faro foi programada para ter lugar quase três semanas antes da 2ª Conferência Internacional.
AULP - Porquê a importância da língua portuguesa na atualidade?
AC - A temática da Língua Portuguesa mobiliza atualmente a atenção e o interesse de um número crescente de instituições e, por isso, são muito frequentes as conferências, colóquios e outras realizações onde a Língua Portuguesa é abordada nos seus mais diversos âmbitos. A nossa conferência tem a importância e a oportunidade que o tema possui atualmente; no futuro, haverá, seguramente, outras razões e outras motivações para que continue a ser um assunto de debate e não me custa a crer que até possa vir a haver razões acrescidas.
Costumo dizer que a Língua Portuguesa está em crescimento no mundo por várias razões, mas, sobretudo, por três. Em primeiro lugar, pela expansão demográfica. No final deste século seremos 350 milhões de falantes. Em segundo lugar por fundamentos culturais. Defendo que devemos enfatizar o valor cultural da Língua e recordo sempre que, Jean Monnet, o pai da Europa, o visionário da construção da unidade europeia, nas suas memórias referia que se pudesse e tivesse que voltar ao princípio, não começava pela economia, mas sim, pela cultura.
Há mais de 40 locais classificados como património material universal da humanidade, espalhados por quase duas dezenas de países em todos os continentes. Esses locais são testemunhos da presença e da maneira portuguesa de estar no mundo que se caracteriza por uma adaptação tão intensa às realidades locais que chega à integração total nos lugares onde vive. É uma maneira de ser que absorve cheiros, cores, paladares, e a musicalidade das línguas com que convive. Essa capacidade de se integrar faz com que o português não esteja em África, na Oceania, ou na Índia mas seja de África, da Oceania ou da Índia. E isso também explica porque, ao contrário de outros idiomas mais recentes e que entretanto desapareceram, a Língua Portuguesa se mantenha nos mundos onde chegou nos séculos XV, XVI e XVII.
AULP - Sendo fruto da parceria de várias instituições, quais foram os maiores desafios para a Conferência?
AC - A conferência foi produto de trabalho em equipa onde todos demos contributos que, somados uns aos dos outros, teve a expressão que o programa manifestou. Sentimo-nos muito compensados pela grande adesão de público (quase 350 inscrições), pela elevada qualidade das participações havidas e pela excelência da organização que muito ficou a dever à colaboração da Universidade do Algarve. O corpo de conferencistas foi excelente e pertence a organizações com grande experiência de trabalho nos domínios em que deram o seu testemunho; organizações capacitadas para ações de grande dimensão, diferentes entre si, mas que se complementam nas intenções que estão presentes no programa. O grande número de inscrições refletiu o interesse de uma sociedade civil ávida por se manifestar e que deseja ser considerada nas definições e iniciativas que se prendem com a língua em que expressa os seus afetos e expectativas
O apoio dos Consulados Gerais de Angola e do Brasil permitiu que, no final dos trabalhos da conferência e antes do jantar de encerramento oferecido pela Região de Turismo do Algarve tivéssemos um espetáculo de "capoeira" e danças tradicionais angolanas que foram merecidamente muito aplaudidos e constituíram o final perfeito para a excelente conferência que nos ocupou intensamente durante todo o dia.
AULP - Serão realizadas outras conferências com esse propósito? Haverá continuidade das atividades da Comissão Temática?
AC - Sim. A Comissão Temática de Promoção e Difusão da Língua Portuguesa apresentou à CPLP e foi aceite um amplo programa que assenta em quatro momentos essenciais: a realização desta Conferência a 11 de Outubro, a organização, em 5 de Maio de 2014, de atividades destinadas a celebrar o Dia da Língua Portuguesa e das Culturas da CPLP, a participação no próximo Encontro da AULP em Macau, onde vamos promover um debate sobre o conceito de "Lusofonia", e, finalmente, durante o ano de 2014, a colaboração nas comemorações do 10º aniversário da Confederação Empresarial da CPLP. Neste quadro, estamos a preparar para janeiro um encontro das escolas portuguesas no mundo. Portanto, a conferência de Faro representa um primeiro elo na cadeia das nossas ações.
AULP - Qual é a sua visão de futuro da língua portuguesa e quais serão os frutos desse momento atual?
AC - Acho que vamos enfrentar e temos que vencer vários desafios: O primeiro desafio é o do ensino do português que é uma língua que ultrapassa o espaço territorial dos vários países que a falam e que, possuindo diversas variantes, tem uma raiz comum que, por ser muito forte, lhe dá consistência e horizontes de futuro. Uma política de ensino da língua que compatibilize necessidades nacionais com a afirmação internacional é uma prioridade essencial. O segundo é o esforço que todos temos que fazer em prol do desenvolvimento económico e social dos nossos países. Acredito que o português venha a ser a próxima língua de poder e de negócios no mundo, como foi recentemente referido pela revista britânica Monocle, mas temos que unir os nossos esforços e trabalhar empenhadamente para isso.
Penso, em terceiro lugar, que necessitamos de fazer uma maior aproximação aos universos de língua espanhola, francesa e italiana porque este conjunto de países de raiz latina, soma 800 milhões de falantes.
E, finalmente, vale a pena respondermos a esta pergunta: a nossa base comum é mais forte ou mais fraca do que o que nos diferencia? Se é, como penso, mais forte e nos dá melhores expectativas para o futuro, é necessário trabalhar em conjunto para afirmarmos a nossa língua comum, a Língua Portuguesa, como um idioma estratégico de comunicação global.



