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Vítor Serpa, diretor do jornal A Bola

Fonte: 
AULP, 2013-10-31

Vitor SerpaEntrevista a Vítor Serpa, diretor do jornal A Bola.

Conferência "Língua Portuguesa, Sociedade Civil e CPLP".

Intervenção: A Sociedade Civil e a Difusão Pública da Língua Portuguesa.

AULP - Qual a importância dos meios de comunicação social, nomeadamente o jornal A Bola na difusão da Língua Portuguesa?

Vítor Serpa - A Bola, começou em 1945, um período em que, em Portugal havia muita iliteracia. A grande maioria das crianças não ia à escola, começava a trabalhar muito cedo para ajudar a família e foi nesse período que o Jornal cresceu. Era uma época em que as pessoas quando se ligavam a um jornal, ligavam-se a um jornal desportivo porque o desporto sempre foi transversal na sociedade.  Essa ideia levou-nos também a associar o desporto à cultura. A preocupação do Jornal foi demonstrar que não é preciso ser uma pessoa ter qualificação para gostar de futebol, nem que um jornal desportivo tinha que ter uma linguagem menos competente do ponto de vista da Língua Portuguesa; pelo contrário, tinha que chegar a muita gente. A Bola aproxima-se dos setenta anos de existência e com uma história de praticamente setenta anos de relação com o desporto, mas do desporto numa perspetiva social, cultural e global.

AULP - Nas comunidades portuguesas o jornal A Bola também marcou uma época?

VS - Sim. Teve muita importância porque houve períodos grandes da vida nacional em que houve ondas de emigração como Newarc nos Estados Unidos, Toronto no Canadá, Paris, Luxemburgo, enfim, nos vários cantos do mundo, onde se formaram comunidades portuguesas. A Bola foi um elo na relação que mantiveram com o país e com seu clube de interesse. Continuaram a ler em português, o que possibilitou que os portugueses de segunda geração também tivessem contacto com a Língua Portuguesa.

AULP - Na relação com os países de língua oficial portuguesa qual foi o papel do jornal A Bola?

VS - Ainda quando eram colónias portuguesas, havia uma relação muito íntima com o jornal porque os grandes ídolos em Portugal eram também originários de África. Lembremos exemplos de jogadores como o Eusébio, o Mário Coluna, o Jordão, o caso de Carlos Alhiho de Cabo Verde e outros jogadores importantes de Timor; Macau, onde havia o Rocha, um grande jogador da Académica de Coimbra. Tudo isso levou a que as comunidades de outros continentes, que não apenas do continente europeu ou americano, e nomeadamente o continente africano, tivessem uma relação muito próxima com o jornal. A presença d´A Bola sempre foi muito forte em África.

AULP - A presença do jornal continua a ser forte em África?

VS - Cada vez mais, já temos edições autónomas quer em Angola quer em Moçambique. Essas edições têm 32 páginas a cores, sendo que dez delas são exclusivas do desporto desses países. Os jornais são impressos nos próprios países. Eu diria que A Bola está presente no mundo inteiro.Apesar de continuamos a enviar jornais, as pessoas fazem, agora, com a subscrição digital temos cada vez mais leitores no mundo inteiro.

AULP - É recorrente ouvir dizer que A Bola tem sido um dos embaixadores da Língua Portuguesa?

VS - Eu penso que é verdade. Posso dar vários exemplos. Uma vez estava a fazer um programa de rádio na Antena 1 e ligou-me uma ouvinte da Suíça a agradecer muito o que o Jornal tem feito, principalmente no mundo da emigração. Explicou que o filho só sabia ler Português por causa d' A Bola, porque era a única forma de contato com a Língua Portuguesa na forma escrita. O mesmo aconteceu em Goa, onde fui encontrar muita gente que falava Português, mas tinha dificuldade em ler. Era através dos jornais desportivos e agora mais concretamente dos sites, que as pessoas mantinham um grande interesse pela língua. Portanto A Bola ao longo de todo este tempo é embaixador da língua no mundo inteiro, porque usa uma linguagem universal, que interessa realmente a todas as camadas da população.

AULP - Com o Mundial de futebol no Brasil em 2014 e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016 o jornal A Bola destacará a língua portuguesa no sistema mundial?

 VS - Os campeonatos do mundo de futebol e os Jogos olímpicos são eventos que se transformam nas maiores montras do mundo. É difícil encontrar um evento que tenha esta dimensão mundial, que interessa a tanta gente no mundo, e as pessoas naturalmente vão estar muito concentradas naquilo que se passa, nos locais onde se passa e depois naturalmente na sua relação com a língua. Muitos daqueles acontecimentos, mesmo os oficiais, vão ser feitos em Língua Portuguesa. Eu diria que vai ser importante para Portugal, para a Língua Portuguesa e para A Bola, isso tem um significado muito especial porque sentimos essa relação com a Língua Portuguesa. Nós acreditamos que é muito importante que a nossa língua continue a ser desenvolvida de uma forma que possa chegar a cada vez mais lados.

AULP - Como vê o futuro da Língua Portuguesa?

VS - Eu acho que o futuro da Língua Portuguesa está assegurado, acredito que não é impunemente que mais de duzentos e cinquenta milhões de pessoas no mundo falam português. Naturalmente que o Brasil é uma mais-valia. Por outro lado, é muito importante que um país como Portugal, a pátria que gerou esta língua, tenha noção do que é preciso ser feito ao nível dos países e regiões lusófonas. Podem não ter muitos falantes mas são muito significativos, como os casos de Macau e de Timor. Penso que nunca se pode perder de vista a realidade de Moçambique que é vizinha da África do Sul e da língua inglesa. Eu acho que as entidades que se preocupam com estas questões, como o Instituto Camões, devem procurar preservar a Língua Portuguesa nestes países. Considero que seria interessante fazer um levantamento mundial sobre as zonas onde a língua portuguesa continua a ter influência mas calculo que isso acarrete um investimento não suportável de momento.