
AULP – Qual a situação atual do ensino superior privado?
João Redondo – Penso que apesar de tudo, ainda é melhor do que a situação geral do País, apesar de não ser aquilo que todos nós pretendíamos que fosse: um setor pujante, em crescimento, em grande desenvolvimento. Mesmo assim, apesar das dificuldades e da retração que tem havido em todas as instituições, é um setor que se tem consolidado, com a devida sustentação. O número de instituições que hoje existe - desde universidades, institutos politécnicos, escolas não integradas, escolas de educação e enfermagem, enfim, instituições muito diferenciadas no seu modelo -, conta com cerca de 90 mil estudantes e mais de 9 mil colaboradores entre docentes, funcionários e administrativos. É um setor com uma importância determinante no ensino superior do país.
As instituições têm-se ajustado, quer no seu modelo de funcionamento, quer no tipo de oferta, quer no que respeita aos custos e condições sociais para os estudantes, conseguindo ajudá-los a superar as suas dificuldades. O sistema mantém-se com robustez e espero que esse sinal se mantenha no futuro e seja aproveitado em ações de otimização na gestão dos processos educativos, através de parcerias e fusões.
Hoje em dia, provavelmente, uma instituição que não seja sustentável isoladamente, pode tornar-se numa instituição forte se funcionar em conjugação com outras instituições, que podem ser nacionais, estrangeiras, públicas ou privadas. São movimentos que estão a ocorrer, que vão fortalecê-las num momento de crise. São dificuldades que afinal vão levar as instituições a procurarem novas formas de reforço, novos desafios e atitudes para um caminho melhor. Acho que o momento atual exige a criação de mais oportunidades. Todos os sectores têm que ver nas dificuldades novas oportunidades. O tempo que vivemos exige que nos esforcemos mais, que sejamos mais criativos e que tenhamos a noção de que é necessário conjugarmos o espírito de sacrifício com trabalho. Temos que trabalhar mais, sermos mais produtivos, sermos mais interativos com os problemas da sociedade, em todos os setores de atividade. Temos de ter mais capacidade de compreensão e de resposta, e melhorarmos os nossos índices de produtividade. Isso também se aprende nas universidades e nos Institutos. Temos que criar as nossas próprias condições e desenvolvermos os nossos próprios projetos.
As instituições precisam de criar condições estruturantes para que os estudantes possam desenvolver dentro das universidades os seus próprios projetos, as suas ideias de trabalho e de negócio, mesmo que não ganhem nada no começo. Isso serve para todas as áreas, desde o Direito, à Economia, ao Marketing, às engenharias, à Motricidade Humana e/ou Música.
AULP- Quais são os planos atuais para fortalecer o ensino superior privado?
JR - O sector privado não funciona isoladamente. A velha ideia de uma escola pública contra uma privada é uma ideia descabida. Muitas instituições do sistema de ensino superior perceberam transformações importantes nos seus modelos de gestão, funcionamento, no seu tipo de oferta, na sua capacidade de internacionalização, conjugadas com instituições estrangeiras.
A AULP vai discutir questões como essas, agora em junho, no encontro no Brasil. Em todos os sentidos as diferenças também representam a riqueza e a busca permanente de uma sociedade. Os países que integram as comunidades de língua portuguesa têm as suas características particulares. São todos países com características únicas e fantásticas, e portanto, devíamos ser capazes de atrair muitos estrangeiros a estudarem cá. Designadamente aqui em Portugal, ainda não temos uma capacidade plena estrutural à semelhança de muitos países nórdicos, que atraem tantos alunos de fora e que têm uma língua que poucos estrangeiros falam. Do nosso lado, temos a língua portuguesa, uma das línguas mais faladas do mundo, um clima fantástico, com segurança, com boas escolas, boas universidades e não temos ainda a organização suficiente entre nossas instituições, para nos tornarmos um pólo suficientemente atrativo. Esse é um aspeto que temos de trabalhar seguramente porque temos uma riqueza enorme nas nossas mãos, que é a ligação entre esses vários países e a diferenciação que nos pode tornar atrativos para estudantes europeus em número que seja comparado ao de outros países europeus. Falta trabalhar essa questão, que é a relação desta rede de ensino, com qualidade, à escala mundial, que será condutora de desenvolvimento.
AULP – Com as situações que ocorreram com a Universidade Lusófona, Independente ou Moderna como se encontra o sistema educativo superior privado?
JR - O recente “caso” da Lusófona não põe de modo algum em questão a qualidade do processo educativo da própria Universidade, nem pode ser confundido com os casos da Independente e antes disso, da Moderna. Não é por aí que se faz o retrato do nosso ensino superior particular. O nosso retrato é aquele que se vê nas instituições que duram há 20, 30, 50 anos, 60 anos, que são referência no sector. Muitas dessas escolas têm índices de desempenho absolutamente fantásticos. Foram criadoras de novas profissões e pioneiras no modelo de organização, de gestão, muitas vezes, copiados como modelo pelo próprio ensino público. Mas às vezes isso não interessa, não vende. O que interessa é o que vende, é o escândalo. Há aqui uma má comunicação pela imprensa em relação ao ensino privado, no que se refere ao que realmente marca este sistema. Evidentemente, o que ocorreu é marcante, mas não define a qualidade do sistema. Muita gente boa e competente foi comprometida por causa de meia dúzia de pessoas. Esses processos ocorrem porque foram determinadas pessoas com determinados perfis nessas instituições que agiram negativamente. Mas nestes processos já puxaram a responsabilidade para essas pessoas.
O destaque deveria ser feito a muitas das nossas instituições com bons graus, boas pesquisas, linhas de investigação importantes, doutoramentos brilhantes. É isso que deve marcar a centena de milhares de pessoas que passaram pelo ensino privado, com desempenho excelente, e que hoje têm grande destaque em lugares e cargos de importância social, desde magistrados, administradores, engenheiros, que se destacam e oferecem grande contribuição ao desenvolvimento do nosso país. Muitas dessas pessoas foram formadas por instituições privadas. Portanto, esse contributo de oferecer ao país a qualidade da sua formação revela que conseguimos obter uma formação de nível superior, de qualidade. Esse é o grande mérito das nossas instituições do ensino privado e é isso que deve ser registrado. Estamos a falar de 80 a 100 instituições, e de problemas que ocorreram em duas ou três instituições, que ocorreram por causa de meia dúzia de pessoas com determinado perfil, responsáveis por aqueles processos e resultados negativos. O que marca é o facto de termos sido capazes de darmos tantas respostas positivas para a formação de tantos profissionais na sociedade.
AULP- Quais são as estratégias do ensino superior privado, dado ao número cada vez menor de entrada de alunos no ensino superior?
JR - É verdade. Cada vez mais tem havido um decréscimo substancial no número de alunos, mas continua haver um sistema com 90 mil estudantes. Um número que revela que o ensino superior privado tem um espaço próprio, com projetos próprios, com ofertas diferenciadas, que interessam a muitos para sua formação. Há vários fatores que podem diferenciar o ensino privado do ensino público, na capacidade atrativa de cada instituição. Não tenho dúvidas que do ponto de vista do método pedagógico, de ensino e investigação, as instituições têm tido excelente capacidade de acompanhamento e que podem desenvolver junto dos seus estudantes, com rigor, sem qualquer facilitismo. Apostamos seriamente na capacidade do ensino que nos deu um lastro positivo. Acredito que as instituições que oferecem qualidade diferenciada sejam capazes de reforçar sua posição no sistema de ensino superior. As que não apostem na qualidade não terão as mesmas condições. Penso que as instituições que hoje estão no sector têm essa capacidade de leitura e renovaram a sua posição no sistema de ensino superior, isso é uma evidência cada vez mais maior.
AULP - A entrada de alunos no ensino privado sem terem o ensino secundário concluído, é uma ação de captação dos mesmos?
JR - Essa é uma realidade que se passa no público numa frequência muito maior. Esse modelo não é exclusivo do ensino privado, foi aproveitado antes pelas escolas do ensino estatal.
AULP - Há diferença na qualidade da formação de um aluno do ensino superior privado e de um aluno do ensino público?
JR - Não é possível dizer, de modo genérico ou universal, quais são essas diferenças. Excelentes alunos, bons alunos, alunos médios e alunos medíocres, existem em todas as instituições, independentemente da sua natureza. Penso que é o ambiente criado em cada uma das instituições, e dentro destas em cada um dos seus cursos, que acaba por influenciar e definir o modelo/tipo de estudante. A qualidade da instituição define-se muito mais pela qualidade do estudante quando sai formado, do que quando entra para um determinado curso. E ainda assim, do mesmo curso e da mesma escola sairão sempre bons profissionais e profissionais menos bons. É tudo muito relativo. Estamos a falar do desempenho dos próprios alunos, que é muito variável e diferenciado.
Mas se a ideia é discutir diferenças entre privadas e públicas, dir-lhe-ei que a questão não pode ser posta assim. Nem todas as Universidades públicas são iguais entre si e oferecem os mesmos índices de desempenho, como nem todas as Universidades privadas são iguais entre si e oferecem os mesmos índices desempenho. Dentro da mesma Universidade encontraremos, seguramente, cursos mais fortes do que outros. Há cursos de Universidades privadas melhores do que cursos de universidades públicas e vice-versa. Sendo certo, no entanto, que todos os cursos acreditados no sistema de ensino superior, sejam públicos ou privados, cumprem os requisitos de qualidade exigidos legalmente e socialmente.



