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Artigo de Opinião - Nilma Lino Gomes

Fonte: 
AULP, 2013-06-04

Nilma Lino Gomes

Reitora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB)

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Sabemos que a construção de qualquer projeto universitário é marcada por embates teóricos e opções políticas inerentes aos processos sociais. Todavia, se construirmos um projeto institucional alicerçado no caráter internacional que orienta a própria criação da UNILAB, conseguiremos ir além e seremos profissionais da garantia de uma universidade pública, comprometida com o púbico e com uma concepção de cooperação Sul-Sul, com vistas à emancipação social.

No caso da UNILAB, soma-se uma característica que é inerente a sua criação: realizar um trabalho de ensino, pesquisa e extensão, na perspectiva da cooperação internacional, atuando com coletivos sociais, étnicos, raciais diversos, muitos dos quais marcados por experiências sociais e políticas de desigualdades e discriminação no Brasil e nos seus países de origem. Acredito que a UNILAB, sensível e comprometida com essa tensa e complexa realidade sociorracial, se consolidará como um centro de pesquisa, de produção teórica, de formação tecnológica, de conhecimentos e de cultura para intervir democraticamente nos processos de desenvolvimento econômico e social que garantam o direito à saúde, educação, moradia, produção de alimentos, soberania alimentar, entre outros, tão necessários quando pensamos em cooperação solidária e desenvolvimento, pautados na justiça social. Um centro de excelência que não tenha medo de ter como meta do seu projeto institucional a articulação entre excelência acadêmica e equidade.

Assumo a reitoria consciente da tarefa de construção de uma relação dialógica entre docentes, discentes e técnico-administrativos, da elaboração do regimento e do Plano de Desenvolvimento Institucional, assim como da sua articulação com a rede de universidades públicas brasileiras, africanas e de outros países, sobretudo, aquelas que se colocam no contexto da cooperação Sul-Sul.

Consolidar tal projeto institucional na UNILAB nacional e internacionalmente exigirá também a articulação com a diversidade de centros, instituições de pesquisa, Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros, Africanos, Asiáticos e Europeus com os quais a cooperação solidária tem sido estabelecida e, certamente, irá se afirmar. Para tal, um dos desafios que se coloca à UNILAB será mapear quais políticas, quais conhecimentos, quais projetos políticos e acadêmicos têm sido desenvolvidos nos países envolvidos com a sua proposta a fim de ampliar as articulações e convênios necessários para a construção da emancipação social.

Merecerá especial atenção, nesse processo, a construção de pesquisas e projetos que visem o mapeamento e a análise das políticas de Ações Afirmativas dos coletivos sociais, étnicos e raciais na garantia de suas lutas pela igualdade de direitos a educação básica e superior e a educação técnico-profissional. Assim como as lutas e políticas afirmativas que visem a garantia do direito ao trabalho, renda, saúde, terra e educação. Como essas lutas se articulam ou se diferenciam quando comparadas aos outros contextos dos países que fazem parte da cooperação Sul-Sul que originou o projeto da UNILAB? Como os estudantes africanos, brasileiros, timorenses, portugueses e dos demais países compreendem e/ou vivenciam tais processos de lutas?

Esse contexto histórico de lutas por emancipação social, de promoção da igualdade racial e superação do racismo, no Brasil, exige que a UNILAB se afirme como um forte diferencial no contexto das Instituições Públicas de Ensino Superior: além do seu caráter internacional e de cooperação solidária Sul-Sul, ela deverá se afirmar como parte integrante de uma política de reconhecimento e identidade. Como? Nas suas relações institucionais, na inovação curricular, na relação entre o conhecimento científico e tecnológico e os conhecimentos tradicionais, no acompanhamento acadêmico de seus estudantes compreendendo como a partir de referenciais culturais distintos se constrói conhecimentos, na própria concepção emancipatória de desenvolvimento que não repita ações neocoloniais. Enfim, nos dizeres de Boaventura de Sousa Santos, que se configure como uma outra universidade, inserida no século XXI.